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Crónicas Domésticas nr.1: Chaleira Chalada

ou um auto-retrato
Olá maltinha esta primeírissima SOZINHA EM CASA vai ser escrita em português porque hoje e, nos últimos dias, tenho-me sentido bem tuga. Avisos, trigger warnings [TW] e afins antes de avançar para a coisa em si: o vídeo que abre esta newsletter tem, a dado momento, um áudio muito estridente. Se não se sentirem confortáveis, ponham o vídeo em pausa desde o início.
Dear English-speaking peepz, this first run of HOME ALONE will be written in Portuguese because today, and in the past few days, I’ve been feeling much too much like a Portuguese-speaking person. I hope you understand and use this opportunity either to practice your Portuguese or to learn a bit more about it by translating this newsletter into English or your native tongue. We have enough free tools at our disposal to do so and thus I’m pretty confident you’ll get the broader picture.

[PT]; [TW] som alto e agudo; high-pitched sound.

Há muito tempo que não via, nem usava um objecto destes: uma chaleira.

Há muito tempo que me tenho sentido muitas vezes chalada, cuja origem etimológica obscura poderá tanto descrever uma infusão de chá como uma pessoa um tanto ou quanto amalucada.

Charrada, chalada, por arrastão, por empurrão ou por confusão, tanto me faz, deixo ao vosso critério as medidas exactas dessa infusão.

Sempre tive uma predilecção especial por objectos que desempenham apenas uma e a sua função, isto é, a função para que foram desenhados. Nos últimos tempos, mais e mais, tenho regressado a estes objectos: um rádio a pilhas, um relógio, uma lanterna, uma balança, uma calculadora, um despertador.

Amo estas coisas que cumprem o seu propósito com simplicidade e fidelidade, que são pequenas e maneiras e que sofreram poucas alterações desde que foram inventadas porque a sua invenção foi desde logo eficiente e suficiente.

Esta chaleira tem-me feito pensar muito sobre o quão chalados têm sido os meus últimos meses, vividos numa espécie de apneia, em correria sôfrega, entre todas as bolas de um malabarismo sonâmbulo que tentava manter no ar, sem, nunca, nunca conseguir respirar, parar, apanhar ar:

mancheia ou fio (semi) vivo, sofia pires, fevereiro 2025. Fotografia: Felipe Soares (Instagram: @pow.list)

Esta chaleira tem-me, também, feito pensar no tempo das coisas e no tempo que demoram as coisas, ora na sua precisão científica - como o ponto exacto de fervedura da água - ora na sua desmesura humana - onde as horas correm rápido umas atrás das outras segundo as convenções dos horários e das mudanças de horas e onde já lá vai o tempo - há que tempos!! - em que era criança e que quando me pediam que esperasse meia hora metade de uma hora me parecia uma eternidade.

Enfim, afinal, para além de chalada, tenho andado sempre atrasada - como aquele painel de azulejos do coelho atrasado da estação de metro do Cais do Sodré, feito pelo Antonio Dacosta.

A primeiríssima newsletter SOZINHA EM CASA deveria ter sido plena de recursos e cheia de partilhas e de dicas e de coisas críticas, políticas e resistentes para que fosse muitíssimo útil para as pessoas simpáticas que me querem ler. A primeiríssima newsletter deveria ter sido enviada pela manhã deste domingo que já passou, pelo menos, por aqui, pelos meandros da Europa Central e também da Ocidental.

A primeiríssima newsletter SOZINHA EM CASA deveria ter sido em tudo ideal mas eu sou só uma pessoa real - e não uma lista de recursos utilitários tipo páginas amarelas - e hoje a manhã acordou bonita e aberta e plena de um sol irrecusável como já não se via, por aqui, há muito tempo. E eu quis andar à fresca, e respirar ar puro, e dourar as bochechas, e ficar com ervas esquecidas nas dobras das calças, e escrever no meu diário e estudar as mil e uma nuances de tonalidades prescientes e presentes nos olhos dos gatos vadios e ouvir os avós a ensinar às poucas crianças da vila como se contam os passos e os degraus e se cantam as canções que vão passando entre gerações.

E está tudo bem porque a vida não é um guião de cinema de ficção e, se calhar, talvez só se calhar, as pessoas que me querem ler querem ler-me também por isto: não só pelas coisas debitadas do almanaque ambulante em que me tornei devido a todas as minhas curiosidades súbitas, nocturnas e intermináveis mas, talvez, e só talvez, também pela forma como vejo o mundo. E talvez, quiçá talvez, seja tão válido escrever sobre os degraus que se formaram espontaneamente pelos passos dados ao longo de séculos e séculos de pessoas a tentar chegar ao ponto mais quentinho e solarengo de uma muralha como escrever, quando for oportuno, sobre todas as outras coisas úteis e subterrâneas e críticas e políticas e sabe-se lá que mais, nesta civilização em ruptura evidente.

E como o real fica sempre aquém do ideal mas, pelo menos, existe, deixo-vos com esta cartinha real que, ao escrevê-la, me mostrou que talvez, e só talvez, possa ficar tranquila por uns momentos, enquanto espero que a água ferva, e posso deixar que a minha perspectiva sobre as coisas - das mais banais, às mais frugais, às mais fulcrais - ocupe só um bocadinho de nada de espaço no mundo porque, afinal, não tenho que andar sempre a correr e em apneia a deitar água em todas as fervuras porque, no final, quem acaba queimada e chalada sou eu.1

Ao longo da vida, várias vezes me disseram: escolhe as tuas lutas; respira fundo e leva as coisas um passinho de cada vez; a vida é uma maratona não é um sprint. Parece que só esta primavera, como os degraus calcados pelas passadas centenárias das pessoas desta terra, estes conselhos estão lenta e muito timidamente a fazer calço em mim.

Miradouro calcado, 30 de Março de 2025, algures na Tuscânia, Itália

Há uns tempos um amigo meu - que tem um trabalho muito fixe e cujos álbuns já ouvi em repeat, em várias ocasiões (obrigada Gems e Jams) - falou-me deste álbum extraordinariamente chamado “New Blue Sun” do André 3000 - sim, esse mesmo, que muitas pessoas se lembram apenas por ter feito parte dos Outkast - e, desde então, a sua escuta tem-se tornado uma obsessão recorrente. O André 3000 é, sem dúvida, alguém que sabe levar as coisas a seu tempo. Este é o seu primeiro álbum a solo, lançado em Novembro de 2023. Há uma música cujo título me diz muito - e intuo que a muita gente também. Chama-se "I Swear, I Really Wanted to Make a 'Rap' Album But This Is Literally the Way the Wind Blew Me This Time” e podem ouvi-la a seguir:

Eu juro que também vos queria ter sido muito prestável e cheia de recursos e de expediente na partilha de bolsas e financiamentos e oportunidades e projectos e outras coisas inauditas e recuperadas dos confins da internet mas hoje foi mesmo nesta direcção que o vento me soprou.

E para quem, como eu, tem necessariamente que ouvir a mesma música ou o mesmo álbum repetidamente até à exaustão, aqui fica esta preciosidade youtubíca para que possam fazer todas as repetições que precisarem, em muito boa companhia:


beijinhos grandes da sofia real que ficou chalada com a ideal e que se despede com esta importante lição de vida, de italiano e de rádio - esse outro objecto simples e brilhante de difusão que cumpre apenas e só o seu propósito: difundir as ondas de rádios avulsas, deixando-nos apanhar frequências sonoras, ora em FM ora em AM, sem qualquer tipo de conexão à internet:

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Esta era fácil, eu sei, mas, como é por demais evidente, não consigo resistir a um jogo de palavras.

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